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Quando falamos de imunidade no outono, o holofote vai quase sempre para a vitamina D e para o própolis. Mas há dois minerais que trabalham nos bastidores de quase todas as defesas do corpo e que raramente entram na conversa: o zinco e o selénio. A Autoridade Europeia para a Segurança Alimentar (EFSA) reconhece que ambos contribuem para o normal funcionamento do sistema imunitário, e mesmo assim o aporte de muitos adultos em Portugal fica aquém do ideal. Neste artigo, satélite do nosso Imunidade de Outono: O Sistema Completo de Prevenção Antes de o Frio Chegar, traduzimos o que a ciência diz, sem promessas de cura, e mostramos como garantir níveis adequados antes de o frio apertar.
O que o zinco e o selénio fazem pela imunidade
O zinco é um cofator de centenas de enzimas e é essencial para o desenvolvimento e a função das células imunitárias, dos neutrófilos às células natural killer e aos linfócitos T. É por isso que a EFSA autoriza a alegação de que o zinco contribui para o normal funcionamento do sistema imunitário.
O selénio atua por uma via diferente: é incorporado em selenoproteínas, como as glutationa peroxidases, que protegem as células imunitárias do stress oxidativo gerado durante uma infeção. Quando o selénio escasseia, a resposta imunitária torna-se menos eficaz. Também aqui a EFSA reconhece o contributo do selénio para o normal funcionamento do sistema imunitário.
Repara na palavra que se repete: normal. Estes minerais não são um turbo para quem já está bem nutrido. São peças que, quando faltam, fazem a máquina funcionar pior. O objetivo é a suficiência, não o excesso.
Onde os encontrar no prato
O zinco está sobretudo em alimentos de origem animal e em sementes: ostras e marisco, carne, sementes de abóbora, leguminosas e frutos secos. Há um detalhe de biodisponibilidade que muitas vezes se esquece: os fitatos presentes em leguminosas e cereais integrais reduzem a absorção do zinco. Demolhar, fermentar ou germinar estes alimentos melhora o aproveitamento do mineral.
O selénio tem uma fonte quase caricatural de tão concentrada: a castanha-do-brasil. Uma a duas castanhas podem chegar para cobrir as necessidades diárias. Peixe, ovos e marisco também contribuem. O senão é que o teor de selénio nos alimentos depende do solo onde crescem, e os solos europeus são naturalmente pobres em selénio quando comparados com os norte-americanos.
Uma a duas castanhas-do-brasil chegam para o selénio do dia.
Porque é que tantos adultos ficam aquém
Não é um problema teórico. Uma revisão do aporte europeu concluiu que a ingestão e o estado de selénio são subótimos na Europa, ao contrário do que acontece na América do Norte. Em dados de ingestão de referência, o consumo médio ronda os 8 mg de zinco e 75 µg de selénio por dia, valores que deixam uma fatia da população abaixo do recomendado, sobretudo entre quem come pouca proteína animal.
Os sinais de um aporte insuficiente são inespecíficos: mais infeções respiratórias do que o habitual, feridas que cicatrizam devagar, cansaço. Nenhum destes sintomas confirma um défice por si só. A regra é a mesma que aplicámos à vitamina D: não adivinhes, mede. Se há suspeita, uma análise ao sangue pedida pelo teu médico vale mais do que qualquer autodiagnóstico.
Como complementar com segurança
Primeiro, a comida. Um prato que combine marisco ou carne, sementes de abóbora e uma castanha-do-brasil cobre boa parte das necessidades sem qualquer cápsula.
Quando o aporte alimentar é baixo, um suplemento faz sentido, mas com duas ressalvas honestas. No caso do zinco, a evidência mais citada é sobre a duração das constipações: pastilhas de zinco em doses altas encurtaram os sintomas em cerca de 33% em alguns ensaios, e revisões apontam para menos dois dias de constipação. Mas isto é um contexto de tratamento com megadoses, não de prevenção diária. A revisão Cochrane de 2024 é clara: o zinco tem pouco ou nenhum efeito na prevenção de constipações. O que faz sentido no dia a dia é garantir a suficiência, não tomar doses terapêuticas às cegas.
No selénio, o cuidado é ainda maior. Uma meta-análise de estudos em humanos mostrou uma relação em U invertido: abaixo e acima de um certo nível, a função das células natural killer piora. Mais selénio não é melhor, e o excesso pode ser prejudicial. Respeitar os limites superiores de ingestão não é um detalhe, é segurança.

Zinco e selénio na tua rotina de outono
Traduzido em gestos simples: uma a duas castanhas-do-brasil por dia para o selénio, sementes de abóbora no iogurte ou na salada, marisco ou carne algumas vezes por semana. Se suplementares zinco, toma-o com uma refeição para evitar náuseas e evita doses altas prolongadas, que competem com a absorção de cobre. E lembra-te de que estes minerais são um alicerce de prevenção, nunca um substituto de cuidados médicos quando já estás doente.
Um scoop dissolvido em água: prático, para levar na mochila.
- Zinco e selénio contribuem para o normal funcionamento do sistema imunitário (alegações reconhecidas pela EFSA).
- O zinco é cofator de enzimas e da função das células imunitárias; o selénio protege-as através de selenoproteínas antioxidantes.
- Fontes: zinco em marisco, carne, sementes e leguminosas; selénio na castanha-do-brasil, peixe e ovos.
- Na Europa, o aporte de selénio é frequentemente subótimo e o de zinco médio ronda os 8 mg/dia.
- A evidência do zinco é sobre encurtar constipações com megadoses, não sobre preveni-las; o objetivo diário é a suficiência.
- No selénio vale a regra do U invertido: mais não é melhor, respeita os limites de ingestão.